“merda”, dizia no meio do escuro. Não conseguia escrever. Quer dizer, conseguia escrever, mas a espontaneidade tinha fugido para as profundezas do braço, nalgum panículo adiposo, certamente. Em repouso, ou então, embrulhada na confusão que percorria cada nervo do seu corpo belo. Um corpo de mármore clássico. Um corpo azul e preto. Nem sabe porque escrevia. Algum autoerotismo remanescente. Merdas que perduram no espaço e no tempo. Palavras que ficam, que se gravam, que sangram cada vez que pega no lápis, no computador, na cabeça de alguém. Pessoas que gralham. Pessoas que cantam. Pessoas que se personificam. Palavras a povoar as cabeças de novos rebentos. Músicas antigas que cravam no peito. Sexo deslavado com pretensões religiosas. Queria esquecer todo o passado e todo o futuro. Esvair-me no intervalo entre Mercúrio e Vénus. E seguir as correntes gravitacionais. Finalmente alguma ordem física. Mesmo o caos é desprovido de significado, basta cairmos.
Por vezes, os quadrantes desaparecem. É como se as correntes continuassem a existir, mas deixamos de avistar terra. Não sabemos que corrente seguir, por isso deixamo-nos ir. E de repente, a terra desaparece, as dimensões alteram-se. Entramos noutro universo, paralelo, perpendicular, convexo. Colidimos e paramos. E ficamos parados até nos apercebermos que é tudo uma questão de referenciais. De facto aceleramos, centripetamente, sem parar. Somente quando nos esquecemos de pensar.
Gostava que me roubassem os braços, o peito, os lábios. Ou talvez não. Queria apenas apanhar boleia de alguns vectores. Sei que é feio pedir boleia. Mas talvez fosse mais simples. Nem tudo tem de ser eticamente aceitável, bonito do ponto de vista socioeconómicohistóricocultural.
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2 comentários:
Gostei muito de ler. Visceral. Fluente. Poético :)
escreves bem
obrigado ;)
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