Sou um melão, daqueles quadrados.
Existiam buracos para respirar. Como não tenho olhos, sentia apenas difusas correntes, derivas continentais, cafés a transbordar de quente.
Diapedeses espirituais. Assim que saí daquele espaço soci-cultural senti o nada queimar-me a pele. A liberdade no sentido trágico da palavra. A subjectividade levada ao extremo.
Quero voltar a ser quadrado. E consigo, é uma lenga-lenga sem fim. A metamorfose da tartaruga azul.
Que importa se decidimos estar meio centímetro à esquerda ou à direita, quando os referenciais não são mais precisos? Li num livro que isso é o mais insuportável. Oh, a maravilhosa descoberta da nossa omnipotência em termos latos. Da nossa omnimpotência. E a descoberta das grandezas relativas.
Para mim é uma manhã solarenga e gelada, quando ninguém saiu à rua, mas sem determinadas qualidades oníricas. Paradoxo que só se ultrapassa às quatro horas da tarde.
Sim, é matar o melão quadrado e salvar o pedículo, mas qual?
Todos?
Que erro de física! Que erro de psiquiatria! Que erro semântico!
O mais ridículo é apanhar um fungo e morrer todo de uma vez, ou ficar metade de um quadrado. É nesse limite de medo, que se decide entre a apoptose e a necrose. Entre o mirrar e o explodir. Ficar por metade é impossível ou igualmente ridículo. O Criador precisa de dispneias, arritmias. Toca a acordar o velho!
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