Essa ansiedade era somente o resultado de implosões sucessivas, tal como um escorpião cego que só sabe picar-se a si próprio.
Até que um dia, é imune à própria vontade.
Voltar a ver. Voltar a ver é o caminho da regressão esclarecida. Não implica deixar tudo para trás, mas antes saber que tudo o que se pensava existir não passa de pó humano. E assim, desvalorizar, desvalorizar tudo e todos até só restar o vento e o pó, esse sim, de argila, presente desde os primórdios. As nossas mãos deixam escapar tudo, esquecemo-nos também da inutilidade da possessão. Da ligeireza dos voláteis sentimentos e associações. Não se pode alterar os pontos de fusão. Confundir química com física, criar escorpiões onde não existe necessidade para isso.
20090425
20081125
“merda”, dizia no meio do escuro. Não conseguia escrever. Quer dizer, conseguia escrever, mas a espontaneidade tinha fugido para as profundezas do braço, nalgum panículo adiposo, certamente. Em repouso, ou então, embrulhada na confusão que percorria cada nervo do seu corpo belo. Um corpo de mármore clássico. Um corpo azul e preto. Nem sabe porque escrevia. Algum autoerotismo remanescente. Merdas que perduram no espaço e no tempo. Palavras que ficam, que se gravam, que sangram cada vez que pega no lápis, no computador, na cabeça de alguém. Pessoas que gralham. Pessoas que cantam. Pessoas que se personificam. Palavras a povoar as cabeças de novos rebentos. Músicas antigas que cravam no peito. Sexo deslavado com pretensões religiosas. Queria esquecer todo o passado e todo o futuro. Esvair-me no intervalo entre Mercúrio e Vénus. E seguir as correntes gravitacionais. Finalmente alguma ordem física. Mesmo o caos é desprovido de significado, basta cairmos.
Por vezes, os quadrantes desaparecem. É como se as correntes continuassem a existir, mas deixamos de avistar terra. Não sabemos que corrente seguir, por isso deixamo-nos ir. E de repente, a terra desaparece, as dimensões alteram-se. Entramos noutro universo, paralelo, perpendicular, convexo. Colidimos e paramos. E ficamos parados até nos apercebermos que é tudo uma questão de referenciais. De facto aceleramos, centripetamente, sem parar. Somente quando nos esquecemos de pensar.
Gostava que me roubassem os braços, o peito, os lábios. Ou talvez não. Queria apenas apanhar boleia de alguns vectores. Sei que é feio pedir boleia. Mas talvez fosse mais simples. Nem tudo tem de ser eticamente aceitável, bonito do ponto de vista socioeconómicohistóricocultural.
Por vezes, os quadrantes desaparecem. É como se as correntes continuassem a existir, mas deixamos de avistar terra. Não sabemos que corrente seguir, por isso deixamo-nos ir. E de repente, a terra desaparece, as dimensões alteram-se. Entramos noutro universo, paralelo, perpendicular, convexo. Colidimos e paramos. E ficamos parados até nos apercebermos que é tudo uma questão de referenciais. De facto aceleramos, centripetamente, sem parar. Somente quando nos esquecemos de pensar.
Gostava que me roubassem os braços, o peito, os lábios. Ou talvez não. Queria apenas apanhar boleia de alguns vectores. Sei que é feio pedir boleia. Mas talvez fosse mais simples. Nem tudo tem de ser eticamente aceitável, bonito do ponto de vista socioeconómicohistóricocultural.
20081123
Perda de anonimato (em ambos os sentidos da palavra)
Sou um melão, daqueles quadrados.
Existiam buracos para respirar. Como não tenho olhos, sentia apenas difusas correntes, derivas continentais, cafés a transbordar de quente.
Diapedeses espirituais. Assim que saí daquele espaço soci-cultural senti o nada queimar-me a pele. A liberdade no sentido trágico da palavra. A subjectividade levada ao extremo.
Quero voltar a ser quadrado. E consigo, é uma lenga-lenga sem fim. A metamorfose da tartaruga azul.
Que importa se decidimos estar meio centímetro à esquerda ou à direita, quando os referenciais não são mais precisos? Li num livro que isso é o mais insuportável. Oh, a maravilhosa descoberta da nossa omnipotência em termos latos. Da nossa omnimpotência. E a descoberta das grandezas relativas.
Para mim é uma manhã solarenga e gelada, quando ninguém saiu à rua, mas sem determinadas qualidades oníricas. Paradoxo que só se ultrapassa às quatro horas da tarde.
Sim, é matar o melão quadrado e salvar o pedículo, mas qual?
Todos?
Que erro de física! Que erro de psiquiatria! Que erro semântico!
O mais ridículo é apanhar um fungo e morrer todo de uma vez, ou ficar metade de um quadrado. É nesse limite de medo, que se decide entre a apoptose e a necrose. Entre o mirrar e o explodir. Ficar por metade é impossível ou igualmente ridículo. O Criador precisa de dispneias, arritmias. Toca a acordar o velho!
Existiam buracos para respirar. Como não tenho olhos, sentia apenas difusas correntes, derivas continentais, cafés a transbordar de quente.
Diapedeses espirituais. Assim que saí daquele espaço soci-cultural senti o nada queimar-me a pele. A liberdade no sentido trágico da palavra. A subjectividade levada ao extremo.
Quero voltar a ser quadrado. E consigo, é uma lenga-lenga sem fim. A metamorfose da tartaruga azul.
Que importa se decidimos estar meio centímetro à esquerda ou à direita, quando os referenciais não são mais precisos? Li num livro que isso é o mais insuportável. Oh, a maravilhosa descoberta da nossa omnipotência em termos latos. Da nossa omnimpotência. E a descoberta das grandezas relativas.
Para mim é uma manhã solarenga e gelada, quando ninguém saiu à rua, mas sem determinadas qualidades oníricas. Paradoxo que só se ultrapassa às quatro horas da tarde.
Sim, é matar o melão quadrado e salvar o pedículo, mas qual?
Todos?
Que erro de física! Que erro de psiquiatria! Que erro semântico!
O mais ridículo é apanhar um fungo e morrer todo de uma vez, ou ficar metade de um quadrado. É nesse limite de medo, que se decide entre a apoptose e a necrose. Entre o mirrar e o explodir. Ficar por metade é impossível ou igualmente ridículo. O Criador precisa de dispneias, arritmias. Toca a acordar o velho!
20080629
Rabiscos num quadro feito de ar
Luzes que
Caem serpentinas do tecto.
Sorrisos de todas as cores
Em cronometradas direcções.
Será um pano a esvoaçar?
Não, a EDP esqueceu-se de pagar a conta.
Salpicos de água
Penetram-te sexualmente,
Inocentemente.
E inclusões glicogénicas
Fazem-te lembrar do tempo
Em que nada existia dentro de ti.
Celebrações evaporam-se a cada segundo
Que passa longe dos teus lábios
Segredando dentes dispersos,
E nada se perde,
A não ser as palavras
Dentro de si,
Dentro do infinitesimamente
Dentro,
Até nascer o nada,
O vácuo que ocupa espaço.
Luzes que
Caem serpentinas do tecto.
Sorrisos de todas as cores
Em cronometradas direcções.
Será um pano a esvoaçar?
Não, a EDP esqueceu-se de pagar a conta.
Salpicos de água
Penetram-te sexualmente,
Inocentemente.
E inclusões glicogénicas
Fazem-te lembrar do tempo
Em que nada existia dentro de ti.
Celebrações evaporam-se a cada segundo
Que passa longe dos teus lábios
Segredando dentes dispersos,
E nada se perde,
A não ser as palavras
Dentro de si,
Dentro do infinitesimamente
Dentro,
Até nascer o nada,
O vácuo que ocupa espaço.
20080527
O difuso
Difundiu-se na imagética
Saudável que sempre
Me procurou.
Hoje cheira a bafio,
Congeminado,
Demasiado,
Falso.
Fugiu,
Fugi?
Partilhada dança
De vontades.
Terei saudades?
Dele, o dourado
Em mim,
Deles, o pincel
Em mim?
De todo o fragmento
Vector de unidade
Ausente em si.
Repouso os meus lábios
Em mim.
Sinto a ebulição,
Instabilidade instável.
Preocupado,
Amo pedaços de mim,
Pedaços do tempo.
Mas hoje o difuso difundiu-se
E o tempo morreu
Para sempre.
Difundiu-se na imagética
Saudável que sempre
Me procurou.
Hoje cheira a bafio,
Congeminado,
Demasiado,
Falso.
Fugiu,
Fugi?
Partilhada dança
De vontades.
Terei saudades?
Dele, o dourado
Em mim,
Deles, o pincel
Em mim?
De todo o fragmento
Vector de unidade
Ausente em si.
Repouso os meus lábios
Em mim.
Sinto a ebulição,
Instabilidade instável.
Preocupado,
Amo pedaços de mim,
Pedaços do tempo.
Mas hoje o difuso difundiu-se
E o tempo morreu
Para sempre.
20080522
20080521
20080518
Tinha desistido de viver, durante anos. Não sabe bem porquê. Era a força do hábito. Conhecia-se bem, o seu inflamável potencial. Nem sabe bem se preferiu. Nem sabe o que preferiu. Foram partículas a dançar ao sabor do vento. Inertes vontades, apenas destiladas com muito tempo em cima. Quando finalmente descobriu que não precisava de vontade para parar o vento, para parar o tempo... A vontade já existia. Faltava apenas libertar esse medo inibitório. Medo de quê?, perguntava-se. Medo de ser, de morrer, mas morrer no sentido lato da palavra, metafórico. Tinha medo de sufocar, deixar de ver. E logo ele, que apreciava tanto a visão desimpedida.
20080517
20080514
20080511
celebração do 26 abril...
Sacrifiquei quem era
Ao oxigénio.
Morri a parte que não compreendia.
Sim, descompliquei-me,
Dizes de forma descontraída.
Mas não queria.
Traí-me.
Por quê?
Um calor momentâneo
Para depois desaparecer
Para sempre, sempre, sempre.
Não, quero mais.
Quero sentir os meus lábios nos meus.
Quero morrer enquanto vivo,
Descobrir a luz por debaixo de todas
As possibilidades negadas ao mundo.
Criar o nada, de novo,
E finalmente, poder dizer,
Fui o nada que sempre quis,
E assim cheguei ao céu.
Ao oxigénio.
Morri a parte que não compreendia.
Sim, descompliquei-me,
Dizes de forma descontraída.
Mas não queria.
Traí-me.
Por quê?
Um calor momentâneo
Para depois desaparecer
Para sempre, sempre, sempre.
Não, quero mais.
Quero sentir os meus lábios nos meus.
Quero morrer enquanto vivo,
Descobrir a luz por debaixo de todas
As possibilidades negadas ao mundo.
Criar o nada, de novo,
E finalmente, poder dizer,
Fui o nada que sempre quis,
E assim cheguei ao céu.
20080510
Ciclos desenham-se. O subtil parece ter uma meia-vida própria.
Fugiste? Morreste?
A culpa, sempre a culpa. Culpa-se o difícil de lidar. Neste autocomiserativo raciocínio, as palavras não surgem. Meticulosamente construídas, são largadas no chão. Talvez germinem. Mas o quê?
O transe desapareceu. Não preciso de me conhecer.
Desapareceste.
A perda surge-me brilhante. Como se fosse mais simples. Mais sincera. Os meios revelam a sua importância. Terramoto, ou talvez não.
E foste matreira. Deixaste o silêncio estridente.
Fugiste? Morreste?
A culpa, sempre a culpa. Culpa-se o difícil de lidar. Neste autocomiserativo raciocínio, as palavras não surgem. Meticulosamente construídas, são largadas no chão. Talvez germinem. Mas o quê?
O transe desapareceu. Não preciso de me conhecer.
Desapareceste.
A perda surge-me brilhante. Como se fosse mais simples. Mais sincera. Os meios revelam a sua importância. Terramoto, ou talvez não.
E foste matreira. Deixaste o silêncio estridente.
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